Luanda - Por detrás dos espessos muros da prisão de Elisabethville, Simon Kimbangu entra na lenda dos mártires africanos. Acorrentado como um condenado às galés, submetido ao regime implacável das masmorras coloniais, mantém, contudo, uma humildade exemplar. Os raros testemunhos sobre a sua vida no cárcere descrevem um homem sereno, mergulhado na oração. Um antigo companheiro de cela contou como Kimbangu, fiel ao amor ao próximo que pregava, partilhava o seu exíguo pedaço de carne com os outros prisioneiros — gesto proibido — suscitando a estupefacção respeitosa de todos. Nunca uma palavra de cólera ou de revolta aberta lhe escapou contra os carcereiros. O profeta de Nkamba transforma a prisão num ermitério: medita, perdoa, encarna até ao fim as virtudes cristãs. Para os seus fiéis, mantidos à distância, esta resistência silenciosa é simultaneamente uma dor lancinante e um estímulo: se Papa Kimbangu resiste à provação, também nós devemos conservar a fé em segredo.
Fonte: Club-k.net
Pois, se o líder foi neutralizado, o movimento kimbanguista, esse, sobrevive na clandestinidade. Logo após a condenação, as autoridades belgas declaram o Kimbanguismo ilegal em todo o Congo Belga. Nkamba é colocada sob administração militar, os seus habitantes dispersos. Qualquer pessoa suspeita de lealdade ao “inimigo público” Simon Kimbangu arrisca a prisão ou a deportação.
Centenas de fiéis são detidos, espancados, exilados para regiões longínquas do Congo, numa tentativa de quebrar o ímpeto da nova Igreja. Os restantes escondem-se, apagam os vestígios da sua adesão. Escondem-se Bíblias e cadernos de cânticos no fundo dos celeiros, enterram-se os objectos que pertenceram ao profeta para que não caiam nas mãos da polícia colonial. Mas, nos corações, a fé permanece ardente. Organizam-se reuniões nocturnas secretas em casas isoladas: cantam-se em surdina os hinos inspirados em Nkamba, reza-se pela libertação de Papa Kimbangu. Com o passar dos anos, estrutura-se uma Igreja da sombra, sem templo nem clero oficial, mas unida pela memória do profeta encarcerado. Simon Kimbangu entrara na prisão acompanhado de trinta e seis apóstolos e fiéis próximos, também eles condenados a pesadas penas; é em torno destes companheiros dispersos que se formam, por vezes, comunidades clandestinas em diversas províncias do Congo.
Contudo, a ausência prolongada do guia acaba também por semear a perturbação. Neste longo silêncio, emergem vozes dissidentes no seio do movimento kimbanguista clandestino. Alguns antigos discípulos, talvez desiludidos por o profeta não ter “quebrado as suas correntes” por milagre, fundam os seus próprios movimentos dissidentes. Em 1926, André Matswa, do Congo-Brazzaville, proclama uma nova revelação, o “Amicalismo”, inspirada na mensagem de Kimbangu, mas tingida de nacionalismo; prega a resistência fiscal e promete aos crentes libertações sobrenaturais. Nos anos 1930, Simon Mpadi, do Congo Belga, lança a Missão dos Negros e defende um regresso à poligamia que Kimbangu havia condenado. Mais tarde, em 1947, um certo Simão Toko, em Angola, reivindica o espírito de Kimbangu para anunciar também milagres (o seu movimento conquistará adeptos até Angola e ao Congo Francês). Estas fracções dispersas testemunham a dificuldade de um rebanho órfão em preservar a unidade doutrinal. Preocupam igualmente a administração colonial, pois algumas assumem contornos abertamente anti-brancos e milenaristas; fala-se de visões de “guerra santa”, em que anjos entregariam armas aos Negros. O nome de Kimbangu é assim brandido por diversos profetas insurgentes, correndo o risco de desnaturar o seu legado pacifista. Ainda assim, apesar destas derivas, o núcleo fiel do Kimbanguismo não se extingue. No seio da família do profeta, vela-se pela chama original.
Mwilu Kiawanga, esposa de Simon Kimbangu, exilada em Kinshasa, continua a criar os filhos na fé. O mais novo, Diangienda Kuntima, cresce com a convicção firme de que a obra do pai deve perdurar. Em 1948, após vinte e sete anos de silêncio, as autoridades coloniais autorizam excepcionalmente Diangienda Kuntima, já jovem adulto, a visitar o pai na prisão. Atrás das grades, Simon Kimbangu, envelhecido mas sempre fervoroso, designa o filho como seu sucessor espiritual.
Esta transmissão faz-se em segredo, mas infunde em Diangienda Kuntima uma missão quase sagrada: reunir todos aqueles que, na sombra, permaneceram fiéis ao ensinamento do profeta. Três anos mais tarde, a 12 de Outubro de 1951, Simon Kimbangu morre na sua cela, com 64 anos. Durante trinta anos, nunca voltou a ver Nkamba nem a respirar o ar da liberdade. Quando a notícia chega aos seus fiéis clandestinos, estes ficam devastados. As autoridades belgas, temendo que funerais públicos reacendam a agitação, enterram o corpo do profeta às escondidas no cemitério de Elisabethville. Simon Kimbangu só regressará simbolicamente à sua terra natal em 1960, após a independência, quando os seus restos mortais forem exumados e trasladados para Nkamba, junto dos seus.
O pai já não está, mas o seu espírito continua a viver através do movimento kimbanguista. Em Léopoldville, Diangienda Kuntima assume discretamente a direcção da organização subterrânea chamada Kintwadi (“juntos”, em kikongo). Sob a cobertura de uma associação sócio-cultural, começa a estruturar esta Igreja sem nome que aguarda o seu tempo. A década de 1950 é marcada por profundas transformações: o vento da descolonização começa a soprar sobre África. Na Gold Coast (actual Ghana), na Nigéria, fala-se de independência iminente. Em França, intelectuais negros reclamam igualdade. A própria Bélgica, abalada pelas insurreições no Ruanda e no Burundi, compreende que terá de ceder no Congo. Em 1956, alguns évolués congoleses publicam o Manifesto da Consciência Africana, que apela ao fim do regime colonial. Neste contexto, a postura intransigente face às religiões autónomas começa a abrandar. Em 1959, às vésperas da independência, o governador-geral belga decide finalmente legalizar o Kimbanguismo para apaziguar o clima político. A 24 de Dezembro de 1959, um decreto oficial levanta a interdição que, há trinta e oito anos, pesava sobre a Église de Jésus-Christ sur Terre par le prophète Simon Kimbangu. Alguns meses depois, a 30 de Junho de 1960, o Congo acede à independência.
Na grande praça de Léopoldville, nesse dia, o povo aclama os seus novos dirigentes. Entre eles, alguns, oriundos do Baixo Congo, cresceram com a lenda de Kimbangu. Joseph Kasa-Vubu, primeiro Presidente da República, é um Mukongo católico, mas sensível ao despertar identitário iniciado pelo profeta. E Patrice Lumumba, Primeiro-Ministro ardente, encarna o sonho de dignidade e de liberdade pelo qual Kimbangu sofreu. Na exaltação da independência, anónimos murmuram que Simon Kimbangu teria anunciado a libertação do país: “Depois de mim, o Congo será livre”, teria profetizado. Verdade ou não, não se pode negar que o seu movimento contribuiu para despertar a consciência nacional. “Todo o sofrimento que podia ser sofrido, nós o sofremos… mas lutámos… e eis que vencemos. O nosso país está agora nas mãos dos seus filhos.” Estas palavras que Aimé Césaire colocará na boca de Lumumba, em Une Saison au Congo, resumem bem o sentimento de triunfo misturado com dor com que se encerra a noite colonial.
Simon Kimbangu, o prisioneiro de Lubumbashi, não viu esse dia, mas o seu martírio deu fruto. A Igreja Kimbanguista, enfim autorizada, sai da clandestinidade, ostentando orgulhosamente a sua bandeira verde, branca e preta. Nkamba, a aldeia outrora proibida, torna-se “Terra Santa” e local oficial de peregrinação. Os filhos do profeta, com Diangienda Kuntima à cabeça, estruturam uma Igreja que contará em breve com milhões de fiéis e se estenderá por toda a África Central. A partir dos anos 1970, tornar-se-á a segunda maior denominação cristã do país, a seguir à Igreja Católica. A voz que se quis reduzir ao silêncio ressoa agora do Congo-Brazzaville a Angola, e até à Europa, entre as diásporas. Simon Kimbangu é proclamado herói nacional: nos manuais de História, o seu nome surge ao lado dos resistentes anticoloniais e dos pais da independência. Em 2001, o Presidente Joseph Kabila chegará mesmo a declarar Kimbangu igual a Patrice Lumumba na história congolesa.
Ricardo VitaHeadhunter e observador pan-africanista