Luanda - Quando um país decide vender o seu petróleo em euros, em yuan, ou em ouro, este facto não se limita a uma escolha técnica de contabilidade. Está a cometer um acto de profunda rebelião geopolítica. Está a desafiar o sistema nervoso central da ordem internacional que vigora desde os acordos de Bretton Woods, mas que encontrou o seu verdadeiro poder nos petrodólares dos anos 1970. A história recente não deixa margem para dúvidas: tentar fugir ao monopólio do dólar nas transações de recursos estratégicos é um dos actos mais perigosos que um Estado soberano pode cometer. As consequências raramente são meramente económicas; são frequentemente existenciais. A narrativa oficial muitas vezes fala de “luta contra o terrorismo”, “democracia” ou “segurança”, mas sob esta retórica encontra-se uma dimensão estrutural relacionada à preservação do domínio do dólar no sistema financeiro global.
Fonte: Club-k.net
Desde os anos 1970, o mundo do petróleo foi, de facto, integrado ao sistema do petrodólar, isto é, a prática dominante de precificar e liquidar petróleo em dólares americanos, o que tem sido um pilar da hegemonia financeira dos EUA e da sua capacidade de impor sanções económicas e exercer influência global.
Esse arranjo confere aos Estados Unidos uma espécie de “privilégio exorbitante”: vantagens econômicas e políticas únicas derivadas do papel central do dólar nas reservas internacionais, no comércio global e na liquidez financeira internacional. Por isso, quando um país deixa de usar dólares para o seu comércio vital, não está apenas a optar por outra moeda. Está a desconectar-se voluntariamente do sistema de controlo e influência norte-americano. Está a dizer: "A vossa alavanca financeira não funciona connosco." Para uma potência hegemónica, esta é uma afronta inaceitável, uma brecha no sistema que, se alargada, pode levar ao seu desmoronamento. A resposta, portanto, não pode ser diplomática ou concorrencial; tem de ser exemplar e punitiva, destinada a enviar uma mensagem clara a qualquer outro potencial rebelde.
É aqui que chegamos ao grande tabuleiro do presente: os BRICS+. A iniciativa, agora ampliada, de promover o comércio em moedas locais e desenvolver sistemas alternativos de pagamento e liquidação, representa a primeira vez que um bloco económico significativo e diversificado desafia colectivamente a ordem do dólar. Já não se trata de um paria isolado como o Irão ou a Venezuela, mas de economias que representam mais de 40% da população mundial e uma fatia crescente do PIB global.
A Venezuela, com as maiores reservas provadas de petróleo do mundo, tomou uma decisão que desafiou esse sistema. Nos últimos anos, Caracas começou a aceitar yuan, euro e outras moedas para as suas exportações de petróleo, especialmente em transações com a China, seu principal parceiro petrolífero.
Segundo analistas, esse movimento não foi meramente técnico, mas político e estratégico: a Venezuela estava a demonstrar que um importante produtor global poderia operar fora da lógica exclusiva do dólar, abrindo espaço para outro tipo de sistema de liquidação e pagamento internacional.
A reação dos EUA foi imediata e severa: sanções económicas prolongadas, bloqueios a navios-tanque e medidas destinadas a sufocar economicamente o país. Oficiais norte-americanos referem-se a estas acções como parte da luta contra o crime organizado ou pela estabilidade regional, mas essa explicação é insuficiente, especialmente quando se percebe que o que estava em jogo era a capacidade venezuelana de escapar à dependência do dólar nos mercados de energia.
O risco de escalada é real. Se o comércio em moedas locais dos BRICS+ começar a incluir transações significativas de petróleo, gás e minerais críticos, estaremos perante um divórcio gradual das bases materiais que sustentam o valor do dólar. Isto não levará ao seu colapso súbito, mas à sua erosão lenta. E no actual contexto global de recursos cada vez mais escassos, a competição por quem define as regras do comércio desses recursos pode tornar-se o principal eixo de conflito do século XXI, muito mais do que as ideologias.
A reação dos EUA a este desafio está a tomar forma através de um duplo movimento estratégico:
1. Contenção e pressão: Intensificação de sanções secundárias (que punem terceiros países por negociarem com os sancionados), pressão diplomática sobre aliados para não aderirem a sistemas alternativos, e demonização geopolítica do bloco.
2. Adaptação e competição: Tentativa de reafirmar a atractividade do dólar através de políticas económicas agressivas (como os juros altos do Fed) e de reforçar alianças financeiras com Europa, Japão e Coreia do Sul.
Este padrão já foi observado antes:
• Iraque: Saddam Hussein anunciou em 2000 que pretendia vender petróleo em euros, em vez de dólares. Poucos anos depois, veio a guerra de 2003, com a justificação oficial centrada em armas de destruição em massa que nunca foram encontradas.
• Líbia: Muammar Gaddafi defendeu a criação de um dinar africano lastreado em ouro para negociar petróleo africano fora do sistema baseado no dólar, proposta que, segundo relatos, alarmou as potências ocidentais. Pouco depois, o regime foi alvo de intervenção da OTAN e Gaddafi foi assassinado em 2011.
Esses eventos foram apresentados como “intervenções humanitárias” ou como resposta a crises internas. Mas não se pode ignorar que, em todos os casos, sistemas alternativos de precificação e liquidação de commodities foram vistos como ameaças à ordem monetária que beneficia os interesses financeiros e estratégicos dos EUA.
Hoje, essa questão não se limita a países isolados. Os BRICS, especialmente com a presidência assumida pela Índia, vêm promovendo o comércio em moedas locais e estão a investigar sistemas alternativos ao dólar para liquidação de transações comerciais importantes.
Se sistemas multilaterais e blocos económicos significativos começarem a desdolarizar em larga escala, isso poderia reduzir a dependência global do dólar como moeda de reserva e de comércio. Tal cenário representa, para Washington, mais do que um desafio técnico: é uma ameaça sistêmica ao modelo de influência geoeconómica que os EUA cultivaram há décadas.
Ao olhar para o passado recente, não é difícil identificar o padrão:
• Países que tentam escapar da dependência do dólar enfrentam sanções, bloqueios e pressões multifacetadas. • A retórica oficial raramente admite que a causa profunda dessas acções é a defesa do sistema financeiro dominado pelo dólar. • Quando lideranças nacionais olham para soluções multilateralistas e alternativas monetárias, como o que se vê nos BRICS, enfrentam não apenas resistência diplomática, mas intervenção económica e geopolítica significativa.
No primeiro semestre de 2025, o dólar americano teve o seu pior desempenho em mais de cinco décadas no índice usado para medir a força da moeda dos Estados Unidos.
A desvalorização acumulada até junho de 2025 foi de 11% no U.S. Dollar Index, criado pelo Federal Reserve (Fed), o banco central americano, e que compara o dólar a outras seis moedas — o euro, yen japonês, a libra esterlina, o dólar canadense, o krona sueco e o franco suíço.
Quedas como essa já foram registadas em outros momentos. Mas, desta vez, a desvalorização acontece ao mesmo tempo que outros eventos que preocupam alguns economistas, o que tem feito cada vez mais investidores, analistas financeiros e outras pessoas no ramo bancário questionarem a força do dólar americano, de acordo com fontes do próprio sector.
Um dos pontos de preocupação apontados é a queda pequena, mas gradual, na participação da moeda nas reservas cambiais dos bancos centrais ao redor do globo.
Somam-se a isso uma fuga de capital estrangeiro no mercado de títulos do Tesouro dos Estados Unidos e críticas sobre a forma como o governo americano tem usado a dominância do dólar para aplicar sanções em temas geopolíticos, segundo especialistas.
A grande questão que se impõe é esta: até que ponto a defesa da soberania económica e monetária de uma nação será tratada como legítima pela ordem internacional estabelecida? E qual é o preço que outros países estarão dispostos a pagar por um sistema que não esteja centrado no poder de um único Estado? O mundo está a mudar, e a resistência à hegemonia do dólar pode ser o próximo grande flashpoint da geopolítica do século XXI, uma batalha que vai muito além das narrativas simplistas de segurança ou democracia.
Para terminar, a pergunta que fica não é se o domínio do dólar vai acabar, todas as hegemonias monetárias têm fim, mas como será a transição. Será ordenada, através de uma reforma multilateral das instituições financeiras? Ou será traumática, marcada por crises económicas, guerras por procuração e um profundo ressentimento contra o poder que tentou, pela força, prender o mundo a uma única moeda? A resposta depende de se Washington aceitará a inevitabilidade de um mundo multipolar e financeiramente diversificado, ou se escolherá defender o seu "privilégio exorbitante" até ao último centavo, custe o que custar à estabilidade global. O padrão histórico, infelizmente, aponta para a segunda opção. Cabe ao resto do mundo decidir se está disposto a pagar o preço.