Londres - ”Esta reflexão é inspirada pela obra "Angola na Era da Pós-Verdade", de Miguel Ângelo, que desvenda a desilusão do povo e do próprio Estado. O livro evidencia de que modo a falsidade e a apatia minam a política e a vida em sociedade angolana.“
Fonte: Voz da Diáspora
Angola vive hoje mais do que uma mera crise económica ou social; enfrenta, sim, uma profunda crise da verdade. É neste ponto que o livro "Angola na Era da Pós-Verdade . O Estado de Desalento e o Desalento do Estado", de Miguel Ângelo, se revela um incómodo espelho da realidade nacional. A pós-verdade, no contexto angolano, não se limita à falsidade esporádica ou à manipulação pontual dos dados. Ela converte-se num sistema, num modelo de governação em que a narrativa oficial se sobrepõe aos factos e a retórica ocupa o espaço da ação. O Estado constrói uma imagem de progresso, estabilidade e reforma que raramente corresponde à realidade do país. Assemelha-se a um médico que diagnostica uma saúde perfeita, enquanto o doente agoniza na sala ao lado. A governação torna-se um exercício de comunicação, de anúncios e de promessas, ao passo que a verdade factual é relegada para a periferia do debate público. Hannah Arendt alertava que, quando a falsidade se estrutura, esta mina a própria capacidade coletiva de discernir o real do ficcional. Que nação poderá subsistir quando já não reconhece as suas chagas? Que Estado conseguirá reformar-se quando se deixa seduzir pela sua própria propaganda e passa a confundir a retórica com a realidade?
Esta lógica narrativa apenas se sustenta por encontrar um povo esgotado, emocionalmente exaurido e politicamente desiludido. O "estado de desalento" descrito por Miguel Ângelo não constitui uma metáfora exagerada, mas sim uma condição social patente nos semblantes anónimos das filas, nos mercados informais, nos bairros sem serviços essenciais e nas conversas murmuradas para contornar dissabores. O cidadão angolano já não se indigna facilmente, não por concordância, mas por mero mecanismo de defesa psíquica. A desilusão serve de escudo contra a frustração constante, à semelhança de quem se habitua a caminhar sob a chuva sem procurar abrigo. Émile Durkheim contribui para a compreensão deste cenário ao abordar a anomia, o período em que as normas deixam de balizar a vida em sociedade e o indivíduo perde referências, propósito e sentido de pertença. Em Angola, a política deixou de organizar expectativas e passou a produzir confusão moral. Até quando poderá um povo subsistir sem um horizonte? Até quando a mera sobrevivência quotidiana poderá suplantar o direito a um futuro? O silêncio social não representa um consenso; é antes um cansaço acumulado que se transfigurou em normalidade.
Enquanto o povo suporta a desilusão como condição de existência, o Estado revela o seu próprio desgaste, não sob a forma de padecimento, mas como uma perda da sua função histórica. A "desilusão do Estado" manifesta-se na incapacidade persistente de assegurar serviços essenciais, na fragilidade ética das instituições e na crescente distância entre o poder e a vida quotidiana. O Estado existe formalmente, mas não se faz presente; exprime-se com altivez, mas atua com as mãos vazias. É como uma moradia pintada por fora enquanto o seu interior se deteriora silenciosamente. Durkheim explicaria este fenómeno como uma crise profunda de regulação social, onde o Estado já não direciona, protege nem integra, limitando-se a gerir a desordem que deveria sanar. Em Angola, a desigualdade tornou-se uma paisagem comum, a precariedade assumiu-se como regra e a injustiça foi normalizada. Que legitimidade pode deter um Estado que coexiste serenamente com a miséria que deveria combater? A quem serve um Estado que gere o fracasso em vez de o confrontar?
Desta coexistência entre um povo esgotado e um Estado desprovido de substância emerge um pacto silencioso, perverso e profundamente corrosivo. O Estado finge que governa para todos, e o povo finge que acredita. Configura-se um teatro político onde o cenário pode mudar, mas a representação mantém-se invariavelmente a mesma. A pós-verdade funciona como pano de fundo constante, apresentando narrativas emotivas, promessas imprecisas e apelos incessantes a um passado glorioso ou a um futuro indeterminado, tudo para contornar o confronto com um presente deficitário. Michel Foucault ensinava que o poder não se sustenta meramente pela repressão, mas igualmente pela criação de discursos que delimitam o que pode ser expresso, ponderado e posto em causa. Quantas perguntas deixaram de ser formuladas em Angola? Quantas verdades foram silenciadas para assegurar a sobrevivência ou uma estabilidade meramente aparente? Quando o presente é perpetuamente adiado, a política perde a sua essência e a cidadania converte-se em mero figurante do seu próprio destino.
É precisamente neste ponto que a juventude angolana é convocada para a sua responsabilidade histórica. Uma nação que se resigna à desilusão arrisca-se a perder não só a esperança, mas também a memória crítica e a capacidade de rutura. Zygmunt Bauman discorria sobre as sociedades líquidas; Angola corre o perigo de se tornar uma sociedade entorpecida, onde nada causa escândalo porque tudo se reitera. A leitura de obras como a de Miguel Ângelo não constitui um mero exercício académico, mas um autêntico ato político. A leitura crítica desperta, causa desconforto, quebra o conformismo e restitui a linguagem ao pensamento. Uma juventude que lê é uma juventude que interpela, e uma juventude que interpela representa uma ameaça à desilusão institucional. Romper com a pós-verdade requer coragem política, mas também consciência social. Implica abandonar a falsidade conveniente, reconhecer as falhas estruturais e restituir a centralidade à verdade como pilar da ação pública. Pois a questão derradeira permanece, árdua e incontornável: quem lucra quando a verdade perde o seu valor? Se a falsidade governa, quem arca com as consequências? E se a desilusão se converter em norma, que futuro poderá ainda ser vislumbrado para Angola?
Henda Ya Xiyetu