Luanda - Era uma vez, num canto quente de África, um reino chamado Kassumba, terra fértil, rios largos e um subsolo tão rico que até as pedras pareciam promessas. Em Kassumba, o problema nunca foi falta de riqueza. O problema sempre foi quem segurava a chave do celeiro.
Fonte: Radio Despertar
Durante muitos anos, o reino viveu sob o comando de velhos Elefantes, pesados, previsíveis, mestres na arte de pisar sem pedir desculpa. O povo animal estava cansado. Cansado de ouvir sempre o mesmo trompete, cansado de ver a savana rica e a panela vazia.
Um dia, surgiu o Leão Reformador. Subiu ao trono com um discurso novo, olhar sério e palavras que soavam a esperança. Prometeu mudar tudo. Disse que ia limpar a corrupção, abrir os caminhos da economia, devolver a voz aos pássaros e fazer Kassumba andar com as próprias pernas. Os animais aplaudiram. Alguns choraram. Outros disseram: “Desta vez é diferente”.
No início, parecia mesmo. Algumas Hienas famosas foram enxotadas da praça pública. O Leão falava de transparência, de meritocracia, de um novo tempo. Os pássaros cantavam com mais coragem e até o Vento levava rumores de mudança para os cantos mais distantes da savana.
Mas o poder, esse velho encantador, começou a sussurrar ao ouvido do Leão.Ele descobriu um feitiço muito útil chamado Atalho Real. Não precisava de concursos, nem de explicações longas. Bastava apontar a pata e dizer: “Tu fazes”. Assim nasceram as grandes obras invisíveis, os contratos rápidos, os negócios feitos à sombra da árvore sagrada. As Hienas não desapareceram. Apenas aprenderam a usar perfume e a sorrir em público.
Enquanto isso, na Clareira da Palavra, os pássaros começaram a desaparecer. Um teve o ninho tomado pelo reino “para bem comum”. Outro perdeu sementes. Outro aprendeu que cantar fora do tom oficial dava azar. No fim, restaram dois grandes Papagaios: um do Estado e outro do próprio Leão. Ambos repetiam as mesmas frases, dia e noite, até parecer verdade.
No mercado de Kassumba, a vida começou a apertar. O Sapo, que vendia arroz, lembrava-se bem de quando um saco custava 10 búzios. Agora custava 30. O problema é que o salário do Sapo continuava igual. A Galinha passou a contar os ovos antes de vender. O Cão, fiel trabalhador, já não conseguia encher a panela sem fazer dívidas.
E havia ainda a moeda estrangeira, as famosas Conchas Verdes, cobiçadas por todos. Antigamente, 100 Conchas trocavam-se por 14 mil búzios. Era pesado, mas possível. Agora, no mercado escondido da savana, as mesmas 100 Conchas custavam 100 mil. Alguns animais desistiram de trocar. Outros desistiram de sonhar.
O Leão, do alto do trono dourado, continuava a falar. Dizia que a culpa era do mundo, das chuvas, das guerras distantes, da herança dos Elefantes antigos. Pedia paciência. Sempre paciência. Mas o tempo passava, e a paciência não enchia barriga.
O Camaleão, sábio e discreto, comentou:“O Leão mudou o tom do rugido, mas o eco é o mesmo.”
A Coruja, que enxerga no escuro, concluiu:“Quando a palavra é controlada, a mentira governa em paz.”
No fim, Kassumba continuava rica no subsolo e pobre à superfície. Um reino onde o preço subia, a esperança descia e o medo aprendia a ficar calado.
E assim termina o conto.Moral da história:Não basta mudar o rei se o trono continua a mandar mais do que o povo.
CRÔNICA | HORÁCIO DOS REIS - JORNALISTA