Luanda - Um dos paradoxos centrais da governação angolana contemporânea é a coexistência entre abundância de recursos humanos e materiais e a persistência de instituições frágeis, pouco eficazes e avessas à inovação. O discurso crítico que denuncia a punição da competência e a valorização da mediocridade não deve ser entendido como mero desabafo emocional, mas como sintoma de um problema estrutural profundamente enraizado na história política e institucional do país.
Fonte: Club-k.net
1. HERANÇA HISTÓRICA DE UM ESTADO MOLDADO PELA GUERRA
O Estado angolano nasceu e consolidou-se num contexto prolongado de conflito armado. Durante décadas, a sobrevivência política e territorial impôs uma lógica em que a lealdade, a disciplina e a obediência eram valores centrais. Nesse ambiente, o pensamento crítico e a autonomia individual eram frequentemente percebidos como ameaças à coesão do poder.
A independência não significou a construção imediata de um Estado plural e meritocrático, mas a transposição da lógica do movimento de libertação para o aparelho estatal. O resultado foi a consolidação de um partido-Estado, em que a fidelidade política se tornou critério determinante de acesso, permanência e progressão nas estruturas públicas. Mesmo após o fim da guerra em 2002, essa cultura não foi substancialmente reformada, perpetuando práticas mais adequadas a tempos de exceção do que à gestão de um Estado moderno.
2. A RACIONALIDADE POLÍTICA DA MEDIOCRIDADE
Do ponto de vista político, a crítica à marginalização da competência revela uma racionalidade específica do poder. Sistemas fortemente centralizados tendem a desconfiar de quadros altamente qualificados e independentes, pois estes acumulam capital técnico, simbólico e, potencialmente, político. A competência gera autonomia; a autonomia gera risco.
Nesse contexto, a mediocridade não é um acidente, mas uma ferramenta funcional. Quadros obedientes, pouco questionadores e dependentes da hierarquia são mais fáceis de controlar, substituir e alinhar. A lealdade pessoal substitui o desempenho como critério de sobrevivência política, criando um ambiente em que o elogio é recompensado e a crítica penalizada.
Essa lógica produz instituições que funcionam mais como extensões da vontade política do que como organismos técnicos orientados para resultados.
3. A FRAGILIDADE INSTITUCIONAL E A AUSÊNCIA DE MERITOCRACIA
Institucionalmente, o problema manifesta-se na personalização do poder e na fragilidade das regras. Ministérios, empresas públicas e órgãos do Estado operam frequentemente com base em relações pessoais, e não em procedimentos impessoais e transparentes. Os concursos públicos carecem de credibilidade, as promoções seguem critérios informais e a proteção a técnicos independentes é quase inexistente.
O medo de errar, ou pior, de se destacar, conduz à paralisia decisória. Numa cultura onde a iniciativa é punida e a inação é tolerada, as instituições tornam-se lentas, defensivas e ineficientes. O Estado aparenta força, mas internamente revela debilidade funcional.
4. LIMITES E ALCANCE DA CRÍTICA
É importante reconhecer que essa crítica, embora pertinente, tende a generalizar excessivamente e a personalizar o problema num único partido ou grupo. Existem, no interior do Estado angolano, ilhas de competência e profissionais comprometidos com o interesse público. No entanto, estes operam num ambiente hostil à inovação e frequentemente veem o seu impacto limitado por estruturas rígidas.
Ainda assim, a crítica central permanece válida: o problema não é a ausência de quadros qualificados, mas a inexistência de um sistema que os proteja, valorize e utilize plenamente.
5. CONCLUSÃO
A crise de governação em Angola não decorre essencialmente da escassez de recursos, mas de um modelo político-institucional que desincentiva o mérito e privilegia a lealdade acrítica. Enquanto a competência continuar a ser percebida como ameaça e não como ativo estratégico, o país permanecerá refém de instituições frágeis e de lideranças pouco transformadoras.
Superar esse impasse exige mais do que alternância política: requer reformas institucionais profundas, mecanismos claros de meritocracia e, sobretudo, coragem política para permitir que os melhores pensem, questionem e liderem. Sem isso, o país continuará a desperdiçar o seu maior recurso, o talento dos próprios filhos de Angola.
Por:Luís Silva Cardoso11/01/2026