Luanda - Ao preparar o meu artigo sobre Nandó, detive-me num detalhe que não é um detalhe. Sim, ele tem uma página na Wikipédia. Mas quantos outros não têm? Escritores, jornalistas, diplomatas, pensadores, figuras culturais que estruturaram a Angola contemporânea. Silêncio digital. Ora, estamos em 2026. Não existir na Wikipédia já não é uma anedota. É um desaparecimento progressivo. A Wikipédia apresenta-se como uma enciclopédia neutra. Mas a Wikipédia não é neutra. Reflete aqueles que escrevem. E aqueles que escrevem são maioritariamente ocidentais, homens, anglófonos ou lusófonos europeus. Os enviesamentos estão documentados: as personalidades africanas estão sub-representadas, as figuras negras marginalizadas, e a história do Sul Global é frequentemente narrada através do prisma do Norte. Não se trata de uma conspiração. Trata-se de uma assimetria de produção. A História pertence a quem a documenta.
Fonte: Club-k.net
Como explicar que Simão Toco não tenha página na Wikipédia? Que Ernesto Bartolomeu, figura emblemática do telejornal angolano, também esteja ausente? Que tantos intelectuais, artistas e construtores da Angola moderna não existam na maior enciclopédia do mundo? Isto não é normal. Não é uma negligência técnica. É um vazio narrativo. E um vazio narrativo acaba sempre por ser preenchido por outros.
O problema não vem apenas “dos outros”. Seria confortável acusar exclusivamente as antigas potências coloniais ou as elites culturais que moldam o relato a partir do exterior. Sim, certos narrativos angolanos continuam a ser escritos fora de Angola. Sim, alguns acontecimentos são hierarquizados segundo sensibilidades ideológicas específicas. Sim, determinadas leituras tornam-se dominantes porque são publicadas em plataformas internacionais. Mas há uma outra verdade, mais incómoda. Muitas figuras negras recusam escrever a sua própria história. Por pudor. Por humildade. Por desconfiança. Por cultura do silêncio. Vi isso de perto. Fui eu próprio quem criou a página da Wikipédia em francês de Pierre-Victor Mpoyo, que conheci bem e que não desejava escrever nada sobre si mesmo. Contribuí igualmente para a criação da página de Clarence Avant, o “Black Godfather”, e fiz parte daqueles que lutaram para o convencer a aceitar a realização de um documentário que retratasse o seu percurso. Porquê? Porque, em muitas culturas negras, falar de si é percecionado como vaidade. Ora, no mundo contemporâneo, não contar a própria história é deixar que outros a contem. E ser contado por outros nunca é neutro. Não falo aqui como observador. Falo como praticante da memória.
O problema é ainda mais grave: muitas personalidades africanas desaparecem sem arquivos estruturados. Sem biografia. Sem fundos documentais organizados. Sem entrevistas de referência. Sem trabalho de transmissão. Quando morrem, as suas bibliotecas pessoais dispersam-se. Os seus arquivos perdem-se. As suas histórias tornam-se orais. Depois apagam-se. Não é apenas uma perda cultural. É uma perda de poder simbólico.
Quando José Eduardo Agualusa afirma, num artigo publicado em O Globo no Brasil, que o 27 de Maio foi o acontecimento mais traumático da história angolana, está a produzir uma hierarquia memorial. E quando José Mena Abrantes afirma, com jactância, que o Otelo de William Shakespeare não era negro, a questão que se coloca é: quem produz a narrativa dominante? Talvez seja sincero, por ignorância. Talvez seja ideológico. Talvez seja estratégico. Mas essa não é a questão central. A verdadeira questão é: quem decide o que é central na memória coletiva? Se a juventude angolana não documentar a sua história, outros o farão. E fá-lo-ão segundo as suas próprias grelhas de leitura. Quando deixamos que figuras culturais reconhecidas hierarquizem os traumas nacionais ou redefinam símbolos raciais, participam, mesmo involuntariamente, na construção de uma memória oficial. E se essa memória não for pluralizada, torna-se hegemónica.
O problema não é que falem. O problema não é que Agualusa escreva. O problema não é que Mena Abrantes interprete Shakespeare. O problema é que demasiado poucas outras vozes angolanas escrevem em contraponto. O vazio amplifica certos relatos. Quando Simão Toco não tem página na Wikipédia, quando Ernesto Bartolomeu está ausente da enciclopédia digital global, quando pensadores, diplomatas e figuras religiosas desaparecem sem arquivo, então o campo narrativo torna-se assimétrico. E a assimetria acaba sempre por produzir um desequilíbrio simbólico.
A Wikipédia não é apenas um site. É a primeira fonte consultada por jornalistas, base de treino de numerosos sistemas de inteligência artificial, referência académica informal, filtro de credibilidade internacional. Não figurar é ser invisível. Figurar mal é ser definido pelo olhar dos outros. Figurar com rigor é existir. É fácil denunciar a dominação. É mais difícil produzir. Criar uma página na Wikipédia exige fontes fiáveis, método, rigor, neutralidade redacional. Não é espetacular. Não é viral. Não é glamoroso. Mas é estratégico. Se mil jovens angolanos formados em edição digital decidissem documentar sistematicamente escritores, jornalistas, diplomatas, empresários, figuras religiosas e artistas, o panorama memorial mudaria em cinco anos.
Fala-se frequentemente de soberania económica, de soberania energética, de soberania política. Mas existe uma outra soberania: a soberania narrativa. Um povo que não controla os seus relatos acaba por interiorizar os relatos dos outros. A dominação já não passa apenas pelas armas ou pelas finanças. Passa pelo arquivo. Este debate não é uma querela literária. É uma questão de maturidade coletiva. Ocupar a Wikipédia não é um capricho. É um ato cívico. Documentar as nossas figuras não é auto-glorificação. É responsabilidade. Incentivar intelectuais, diplomatas e artistas a deixarem registos escritos não é ego. É transmissão.
Não podemos continuar a queixar-nos de que a história é contada por outros se nos recusamos a escrevê-la. Não podemos denunciar o apagamento se alimentamos o silêncio. A Wikipédia não é a História. Mas hoje é a sua antecâmara. E Angola não pode permitir-se estar ausente. Não se trata de orgulho. Trata-se de continuidade. Não se trata de reescrever o passado. Trata-se de impedir que seja confiscado. A pergunta não é: “Porque escrevem os outros por nós?” A verdadeira pergunta é: “Quando decidimos escrever nós mesmos?”. Angola não carece de história. Carece de arquivo.
Ricardo VitaHeadhunter e observador pan-africano