O caminho complicado aberto com as eleições de 17 de Maio
O MpD ficou pelos 33 deputados e a UCID
viu-se reduzida a 2 deputados, deixando para trás o sonho de constituir um
grupo parlamentar e de quebrar o bipartidarismo e a sucessão de governos de
maioria absoluta que têm caracterizado a democracia cabo-verdiana. A abstenção
subiu para cerca de 53.5%, servindo de argumento para os habituais descontentes
da democracia, sem qualquer estudo prévio sobre as suas reais causas, reafirmar
com mais vigor a convicção de qua a democracia representativa não passa de uma
democracia formal e de fachada.O facto de todo o
processo eleitoral ter-se verificado na ordem e tranquilidade, culminando na
aceitação dos resultados obtidos por todos os intervenientes e na disposição
manifestada de uma transferência regular de poder com a nova legislatura, não
impede que se continue a pôr em causa a qualidade da democracia pelas razões
nem sempre as mais importantes. Não se valoriza suficientemente o que já foi conseguido,
mas, em sentido contrário, tudo parece servir para diminuir o sistema
democrático. Um exemplo é o
zelo demonstrado nas sucessivas queixas à CNE visando a neutralidade do governo
que se tomadas à letra teriam o resultado de praticamente paralisar a
governação do país em tempo eleitoral. Aliás, parecem provocatórias e parte do
jogo político porque quem as faz em geral tem prática similar onde exerce poder
municipal. O mesmo acontece com as acusações mútuas de compra de votos que
depois das eleições são esquecidas porque na realidade a cultura política
vigente é de cultivar a dependência das pessoas como expediente político. Um outro exemplo
são as acusações repetidas feitas pelo líder do PAICV logo na noite das
eleições de que Cabo Verde é uma democracia de fachada e a promessa de
construir um Novo Cabo
Verde. Se não fosse pelo facto de não ter maioria qualificada para rever
a Constituição da República, à semelhança de populistas como Victor Orban fizeram
na Hungria e antes na Polónia, seria de preocupar a todos, considerando os
propósitos iliberais que em outras ocasiões exprimiu e que incidiam
fundamentalmente no controlo do poder
judicial e de outros órgãos constitucionais autónomos sobre o exercício do
poder pelo executivo. Mesmo assim a disponibilidade que tem demonstrado em
desafiar as normas e procedimentos já devidamente sedimentados no país dá ideia
do tipo de desafio que o seu futuro governo irá representar para o país na
construção do “Novo Cabo
Verde ” que propõe. Essas engenharias
sociais, criação do
homem novo, “construção
de um novo Cabo Verde ” nos países onde foram tentadas, resultarem
em atrasos no desenvolvimento, perdas de oportunidade, e em alguns casos, em desastres
humanitários terríveis. Quando se está perante um mundo a reconstituir-se em
termos geoeconómicos e geopolíticos como agora está a acontecer, é complicado aventurar-se
sem corrimão de segurança e com fiscalização enfraquecida. Ainda mais se a
visão que se quer projectar e embarcar toda a gente mais lembra utopias do
passado do que um futuro construído com solidez e na base do realismo e do
pragmatismo. Um contrapeso para
equilibrar uma proposta de incursão nesse caminho duvidoso podia ser o
presidente da república no âmbito das suas funções de garantir o regular
funcionamento das instituições. É, contudo, duvidoso que isso venha acontecer
considerando que o actual titular do cargo encontra-se numa posição politicamente
frágil. A seis meses da eleição presidencial e pertencendo originariamente ao
mesmo extracto político do partido vencedor das legislativas, o PR depende do
apoio dessa maioria para ganhar um segundo mandato. E não parece que isso
esteja garantido. O problema estaria
na forma como teria sido visto a sua posição na luta renhida pela presidência do
PAICV no ano passado. Não era favorável à
actual liderança. Entretanto, com a convergência de apoios ao Francisco Carvalho
nas vésperas das eleições legislativas, poder-se-á tomar como um sinal de
aproximação a presença do actual Chefe da Casa Civil da presidência da
república num desses encontros. A isso deve-se juntar a agenda carregada do PR
depois da marcação das eleições legislativas junto a vários municípios das quatro
ilhas visitadas e depois em Portugal, na comunidade emigrada e entre os jovens.
A temática básica desses encontros não poucas vezes extravasa-se para a área de
governação com particular incidência nas questões mais sensíveis no debate
entre o governo e o maior partido da oposição. A partir de uma
necessidade de sinalizar aproximação para eventualmente assegurar apoio, dificilmente
se pode ficar na melhor posição de árbitro e moderador que o equilíbrio e estabilidade
do sistema político exige. Na situação em que numa questão de dias se vai ter
um chefe de governo com disposição várias vezes reiterada de contornar ou
ultrapassar as normas e procedimentos democráticos para atingir os seus
objectivos, uma eventual fragilidade da função do PR trará muitas complicações.
Um outro factor a ter em conta no que respeita ao checks and balance do sistema
político poderá ser a oposição que o MpD será capaz de efectivar enquanto
estiver a recompor-se da derrota sofrida nas urnas. A decisão tomada
pelo partido, na sequência da pesada derrota nas eleições autárquicas de 1 de Dezembro
de 2024, de não reagir com suficiente rapidez e determinação para se adequar ao
novo ambiente político provavelmente ter-lhe-à custado a possibilidade de sair
vitorioso nas eleições legislativas. Levou quase dois meses, fins de Janeiro de
2025, para se reunir numa direcção nacional. A opção por não realizar uma
convenção do partido para legitimar uma candidatura e uma liderança a presentar
nas eleições legislativas retirou-lhe a possibilidade de durante mais de um ano
engajar de uma outra forma a sociedade e sentir o seu pulso quanto aos desafios
do momento e as expectativas para o futuro. Também não o motivou
para galvanizar estruturas do partido nas ilhas em debate frutífero para a
construção de uma visão a apresentar ao país e à sociedade, nem criou a
oportunidade para o despontar de novas personalidades, de novas ideias e de
futuros dirigentes. Em consequência, o partido afunilou toda a sua actuação
política em função do líder, transformado em maior activo, como se pode
constatar na forma como a campanha eleitoral foi conduzida. Não estranha que o
partido exaurido e falho de novas ideias não tenha tido capacidade para dar uma
resposta ao discurso populista dos adversários. Faltou a visão que poderia
contrapor ao convite à irrazoabilidade, à impaciência e às expectativas excessivas
inerentes ao populismo. E no fim, o líder depois de contabilizar os
anos de política, os cargos exercidos e afirmar que há vida para além da política, partiu figurativamente para o seu
“footing” matinal. Parece ser esse o
destino dos partidos nas democracias que, em vez de ter vida interna e em
diálogo com a sociedade, focam toda a atenção no líder, transformado num chefe
à volta do qual tudo gira e em relação ao qual todos se submetem, embriagados pela
vontade de conquistar e manter o poder. O legado do partido tende a perder-se,
o mesmo acontecendo com as referências e também com a capacidade de renovação em
resposta à mudança dos tempos. O resultado para os cidadãos eleitores é para
uns considerar que não há diferenças entre os partidos e para outros
sentirem-se atraídos pelos extremos do discurso político e das promessas, apostando nos populistas, mesmo
que as propostas sejam irrealistas, a competência das lideranças seja duvidosa e a
liberdade e a própria prosperidade fiquem em perigo. O povo escolheu um
caminho complicado no dia 17 de Maio. É fundamental que o país conserve toda a
sua capacidade para enfrentar percalços no caminho que poderão vir a surgir.
Também que mantenha seguro e funcional os mecanismos democráticos necessários
para garantir o controlo democrático do poder e assegurar os mecanismos que futuramente poderão permitir fazer as
ratificações necessárias na orientação do país, caso se desvie dos seus valores
de liberdade, de democracia e do Estado de Direito.Humberto CardosoTexto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1277
de 20 de Maio de 2026.
5/22/2026 2:49:11 AM