Armando Napoleão Fernandes, morreu há 57 anos, temas para reflexão
Este meu avô passou uma vida a escrever o Léxico do Crioulo do Arquipélago
de Cabo Verde, livro que contém mais de cinco mil palavras, recolhidas de Santo
Antão à Brava. No entanto, quase ninguém sabe da existência desta obra,
publicada apenas 22 anos depois do seu falecimento. Depois da 1.ª edição, de
500 exemplares, saída em 1991 e rapidamente esgotada, até hoje não apareceu uma
2.ª edição. Ou será que já não interessa?Este
é um livro azarado. Depois de concluído, devido à conjuntura política dos anos
de 1950/60, não podia ser editado. Após a morte do autor, o original foi
entregue a um familiar, para ajudar a encontrar uma forma de o publicar.
Passaram-se mais de três anos e nada. Depois da Independência, o livro foi
entregue, em 1976, pela minha mãe, Ivone Fernandes Ramos, à então
Direcção-Geral da Cultura, onde ficou até 1982. Foi devolvido nesse ano, tendo
sido eu quem recebeu o original, mediante guia de entrega, com a incumbência de
o devolver à minha mãe, em São Vicente. Foi assim que tomei contacto com o
precioso manuscrito, constante de dois volumes encadernados. Fiquei maravilhado
com a leitura e com o que fui aprendendo, até a minha mãe vir recebê-los
pessoalmente.Bem,
o livro continuou à espera, por quase dez anos, até que foi editado em Abril de
1991. Esgotou logo. Desde há 35 anos, os interessados nesta obra continuam à
espera de uma 2.ª edição. Eis, pois, o momento para alguma reflexão. Com toda a
humildade, pois não sou especialista no assunto, e com o devido respeito por
aqueles que o são, como se diz em crioulo, os especialistas ou experts, chamo a
atenção para o seguinte:1)
Ninguém contesta: o crioulo é uma língua derivada da língua portuguesa.2) O
português é uma língua latina, logo derivada essencialmente do latim.3)
Vovô escreveu o seu livro com palavras crioulas grafadas a partir da base
etimológica do português e com o respectivo significado nessa língua-mãe,
porque dela derivadas ou nela originadas. Trata-se, portanto, de uma escrita
essencialmente de base etimológica.4)
Vovô teve uma ideia genial: manteve o alfabeto do português, mas criou um
conjunto de regras simples para representar, em crioulo, sons que não existem
em português. É deste modo que começa o livro, com indicações sobre Ortografia
e Fonologia e uma Fonologia Sónica com apenas quatro regras: ch lê-se tch, como
em match; jh lê-se dj, como em Djon; sh lê-se ch, como em xota e xixi.
Presumimos que seja por isso que esta obra tem sido posta de lado, porque o
alfabeto proposto e actualmente em vigor para o crioulo segue outra lógica.
Trata-se de um sistema pensado para línguas nativas ou étnicas que nunca
tiveram alfabeto próprio e não descendem directamente de uma outra língua, ao
contrário do nosso crioulo, que vem do português.O
dicionário do vovô, voltamos a dizê-lo, tem cerca de cinco mil palavras.
Estudos de linguistas não cabo-verdianos, que falam e estudam outras línguas
africanas, identificaram, grosso modo, no crioulo de Cabo Verde, a existência
de apenas setenta palavras provenientes de línguas africanas. Eis alguns
exemplos: mandinga, 41 palavras; wolof, 11; timené, 4; outras línguas
atlânticas, 4; banto, kikongo e kimbundo, 4. Há ainda palavras de outras
línguas, como bambarã e malinque, cujos números não foram especificados.Ou
seja, com mais estudos, o número de palavras africanas no crioulo não deverá,
hipoteticamente, ultrapassar noventa. Arredondando, talvez chegue a cem
palavras africanas, num universo de cinco mil palavras portuguesas da recolha
que vovô fez de Santo Antão à Brava. Note-se: no conjunto de todas as ilhas. No
livro, cada palavra tem a indicação da ilha respectiva, embora haja um grande
número de palavras sem essa indicação, por serem comuns a todas as ilhas.É
claro que a gramática do crioulo tem relação com as línguas africanas. No
entanto, na minha humilde opinião, isso não justifica a adopção de um alfabeto
não etimológico, ou distante da origem das palavras, quando a língua
fundamental de que dispomos é o português e quase todas as palavras que
utilizamos no crioulo vêm do português. Quando surge uma palavra técnica ou de
pouco uso, o nosso cérebro faz de imediato a transposição do português para o
crioulo.Por
ter adoptado a escrita etimológica, o livro do vovô, finalizado nos anos de
1940/1950, tem sido rejeitado e esquecido. Deliberadamente? Evocam-se sempre
questões técnicas. Mas o livro do vovô tem servido de base para estudos e
plágios indirectos, embora o autor só tenha sido citado por alguns
investigadores conceituados, que realmente o valorizam.Em
vida, o meu vovô Armando Napoleão Fernandes sequer imaginou a publicação do seu
livro, porque o crioulo era língua proibida, embora tolerada, ou melhor, ia-se
tolerando. Recorde-se que, nos anos de 1960, defender ou escrever em crioulo
significava nacionalismo. Logo, quem ousasse ficava imediatamente na mira da
perseguição das autoridades coloniais. E a propaganda colonial dizia que
cabo-verdianos e guineenses não gostavam da língua portuguesa, o que, até certo
ponto, levou à crença de que também não gostavam dos portugueses. Por isso,
Amílcar Cabral fez questão de afirmar sempre: português é a nossa língua, temos
de defendê-la.Onde
fica o crioulo, então? A expressão «no meio está a virtude» é muito conhecida e
costuma ser atribuída à tradição clássica, sobretudo à ideia aristotélica da
justa medida, mais do que propriamente a um ditado chinês. Ou, como também se
diz, nem muito ao mar, nem tanto à terra: seguir pelo caminho do meio.Não
há dúvida de que o ALUPEC, aprovado como modelo experimental por um certo
período, cujo prazo já expirou há muito, revelou-se o alfabeto da discórdia. Na
sua base, tem sido cada um por si, todos à sua maneira. Cada um escreve como
quer. Escreve-se numa desordem total, que não serve nem ajuda nenhuma das
línguas: nem o português, nem o crioulo. O alerta tem sido dado por várias
personalidades, mas persiste-se no erro. E, quanto mais o tempo passa, maiores
serão os danos.Voltamos
a repisar: há necessidade de uma 2.ª edição do livro de Armando Napoleão
Fernandes, porque contém um elevado número de palavras registadas entre o
início do século XX e os anos de 1940/50. Muitas palavras vão desaparecendo na
evolução natural da língua. Nesta obra encontra-se ainda um registo escrito e
uma descrição de quase todas as manifestações culturais cabo-verdianas daquela
época, o que faz de Armando Napoleão Fernandes uma testemunha credível do seu
tempo.De
notar ainda: muitas definições de palavras vão evoluindo, mudam de significado
ou de sentido, e há deturpações, muitas vezes provocadas com objectivos pouco
claros. E porque há essa evolução e modernização natural da língua, impõe-se
uma contínua fixação da escrita, que ocorre porque se escreve. Mas, quando não
se escreve com um padrão, entramos no domínio da confusão. Não resisto a dar o
exemplo da França, onde os dicionários são actualizados de tempos a tempos,
porque a língua vai evoluindo. Temos, pois, de encontrar um consenso na escrita
do crioulo e seguir em frente. Da discussão nasce a luz. Felizmente, ainda nos
vamos entendendo em português, apesar do tal acordo, e em crioulo. Ups! Cada um
vai escrevendo no seu próprio ALUPEC e lá vamos escrevendo e rindo, em criolês!Para
saber mais sobre vovô, os interessados podem ler uma biografia aqui: http://armando-napoleao-fernandes.blogspot.com/Nota: dados referidos a partir de Nicolas Quint,
Africanismos na Língua Cabo-Verdiana, Paris, L’Harmattan, 2008, pp. 100-108,
Anexo 1: Lista de setenta palavras de provável origem africana, classificadas
por língua lexificadora.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1283
de 01 de Julho de 2026.
7/6/2026 4:12:00 AM