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De bombeiro a consultor de investimentos: ele salvava vidas, hoje protege patrimônios

De bombeiro a consultor de investimentos: ele salvava vidas, hoje protege patrimônios
Durante anos, Nilceu Falkemback nunca sabia o que encontraria do outro lado da ocorrência quando o telefone 193 tocava. Um incêndio. Um deslizamento. Um acidente. Uma pessoa presa entre ferragens. A única certeza era que haveria alguém precisando manter a calma quando tudo ao redor parecia correr algum risco.Hoje, a sirene deu lugar ao celular. A viatura virou computador. A farda foi substituída pelo terno. Mas, para ele, a missão continua praticamente a mesma: chegar justamente quando alguém precisa de alguma ajuda — muitas vezes, urgente.“Continuo fazendo o que sempre fiz: servindo e salvando. Só mudei de mesa”, resume.A diferença é que, agora, os incêndios costumam começar numa queda da Bolsa, numa compra impulsiva, numa dívida mal planejada ou numa decisão tomada no calor da emoção.Porque, Falkembach aprendeu cedo, nem todo fogo produz fumaça.O pânico chega antes das chamasAntes de administrar R$ 83 milhões em patrimônio na Portfel, Falkemback passou 12 anos em operações reais de emergência: cinco na Brigada Militar — a Polícia Militar do Rio Grande do Sul – e sete no Corpo de Bombeiros gaúcho.Em uma das ocorrências que mais marcaram sua carreira, era o operador da escada Magirus durante o incêndio na Secretaria da Segurança Pública, em Porto Alegre, tragédia que vitimou dois colegas de farda, o tenente Deroci de Almeida da Costa e o sargento Lúcio Ubirajara Munhoz. Também atuou nas enchentes que devastaram o Rio Grande do Sul em 2024. Durante a tragédia, Falkemback passou 15 dias seguidos em ações de resgate e retirada de vítimas em áreas atingidas por deslizamentos, em Gramado.Na profissão, aprendeu que segundos importam. Mas descobriu algo ainda mais importante. Quem entra em um prédio em chamas percebe rapidamente que o maior inimigo nem sempre é o fogo. Muitas vezes, é o pânico.É exatamente essa experiência que ele leva para as reuniões com investidores. Quando o mercado entra em combustão, diz, a primeira reação de muita gente é correr. Vender. Abandonar o plano. Procurar qualquer saída.Nesses momentos, o trabalho do consultor é impedir que o cliente transforme fumaça em tragédia.Leia também: De advogado a humorista: como Rafael Cunha deixou o Direito para lucrar com o humorFalkemback em Gramado, em 2024, durante trabalho de resgate de 11 pessoas que foram soterradas após deslizamento (Foto: Arquivo pessoal)O fogo que começa dentro da cabeçaNo Corpo de Bombeiros existe um protocolo. Ninguém entra em uma ocorrência sem avaliar a estrutura, identificar riscos e definir uma estratégia de atuação.No mercado financeiro, Falkemback percebeu que a lógica é surpreendentemente parecida. Antes de recomendar qualquer investimento, ele quer entender de onde veio aquele patrimônio. Como foi construído. Quais perdas ficaram pelo caminho. O que tira o sono daquele cliente. Só depois vem a estratégia.Para ele, uma carteira mal construída se parece com um incêndio combatido sem planejamento: o perigo não está apenas nas chamas, mas na forma como as pessoas reagem diante delas.Leia também: Entre bisturis e patrimônios: a trajetória de um médico no mercado financeiroPromoções que iniciam incêndiosNão raro, Falkemback entra em cena justamente quando todos os outros querem acelerar a venda. Enquanto corretores de imóveis falam em oportunidade única e vendedores reforçam que “é agora ou nunca”, ele costuma assumir o papel menos popular da mesa — a água, desta vez, é apenas metafórica.“Vou colocar água no chope”, brinca.Na prática, significa convencer clientes a não comprar um imóvel, trocar de carro ou assumir um financiamento apenas porque a oportunidade parece imperdível.“O meu papel é tirar o viés e a emoção do momento da venda”, explica.É um tipo diferente de combate ao fogo. Em vez de mangueira, perguntas. Em vez de extintor, planejamento. Em vez de apagar incêndios, evitar que eles comecem.Leia também: De Las Vegas à Expert XP: como Agassi transformou reinvenção em estratégiaEx-bombeiro, agora com nova “farda”: “o meu papel é tirar o viés e a emoção do momento da venda” (Foto: Arquivo pessoal)Tranquilidade depende de segurança financeiraA pandemia também mudou sua relação com o futuro. Em poucos meses, ele perdeu a mãe e o padrasto para a Covid-19. A experiência reforçou uma convicção que já vinha amadurecendo: planejamento financeiro não serve apenas para acumular patrimônio. Serve para proteger quem fica quando a vida muda de forma inesperada.A teoria ganhou rosto. Segurança financeira deixou de significar apenas patrimônio. Passou a significar tranquilidade para a família.Falkemback não construiu autoridade apenas estudando investimentos. Construiu errando — hoje ele admite que já provocou os próprios incêndios financeiros. E talvez por isso fale com tanta tranquilidade sobre dinheiro.O consultor conta que já tomou praticamente todas as decisões equivocadas que hoje pede aos clientes para evitarem. Foi funcionário público endividado antes de se tornar poupador. Mas organizou a vida financeira antes de se propor a orientar a dos outros.Leia também: Ex-jogador vira assessor e quer levar planejamento financeiro para os gramadosEm 2024, um incêndio de grandes proporções consumiu o prédio da Secretaria de Segurança Pública do Rio Grande do Sul, em Porto Alegre (Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini)Perdas de familiares e colegasA decisão de mudar de carreira também nasceu de uma sequência de acontecimentos que mudaram sua perspectiva. Enquanto estudava para o concurso de sargento do Corpo de Bombeiros, foi aprovado, mas acabou não sendo chamado. Pouco depois vieram as perdas na pandemia. Em seguida, o incêndio na Secretaria da Segurança Pública, que matou dois colegas de farda.Naquela madrugada, olhando para o prédio destruído, percebeu que não queria mais aquela vida.Quando decidiu trocar a estabilidade da carreira militar pelo mercado financeiro, também não agiu por impulso. Ao lado da esposa, passou dois anos desenhando um plano de transição. Mudou de cidade, reduziu despesas, reforçou a reserva de emergência e preparou a família para um período de renda incerta.Em 2024, pediu licença não remunerada para testar a nova carreira. As enchentes no Rio Grande do Sul interromperam temporariamente os planos e o fizeram voltar ao serviço para atuar nas operações de resgate. Depois da missão, retomou o processo e pediu exoneração definitiva, convencido de que havia encontrado um novo propósito. Leia também: De advogado a humorista: como Rafael Cunha deixou o Direito para lucrar com o humorDo Corpo de Bombeiros do Rio Grande do Sul ao mercado financeiro: “continuo fazendo o que sempre fiz: servindo e salvando. Só mudei de mesa.”Prevenção ainda é mais barata do que o resgateHá uma máxima conhecida entre bombeiros: o melhor incêndio é aquele que nunca acontece. Falkemback leva essa lógica para a consultoria.Boa parte do seu trabalho não é escolher fundos, ações ou títulos. É identificar o cheiro de queimado antes que apareçam as chamas.Às vezes isso significa convencer um cliente a adiar uma compra. Em outras, reorganizar gastos. Em outras tantas, reforçar a importância de uma reserva de emergência antes mesmo de pensar em rentabilidade.Para ele, uma boa consultoria funciona como uma brigada de incêndio. O trabalho mais importante acontece antes de o alarme tocar.Nilceu Falkembach operava a escada Magirus no incêndio da SSP/RS, em 2021; dois de seus colegas morreram na tragédia (Foto: Felipe Dalla Valle/Palácio Piratini)Novo uniforme, mesma missãoQuando começou a trabalhar, aos 13 anos, como ferreiro no interior do Rio Grande do Sul, Falkembach queria apenas construir uma vida melhor.A carreira militar lhe ensinou disciplina, preparo e responsabilidade sob pressão.O mercado financeiro lhe apresentou uma nova missão.No início da nova profissão, a disciplina voltou a ser colocada à prova. Os dias começavam antes das cinco da manhã. Era hora de estudar, prospectar clientes, construir relacionamentos e formar uma carteira praticamente do zero. Depois de 12 anos de estabilidade no serviço público, Falkemback recomeçava como iniciante em outra profissão.Hoje, olhando para trás, ele não acredita que tenha mudado de carreira. Apenas mudou de cenário.Antes, corria para salvar pessoas de incêndios que todos conseguiam enxergar. Agora, tenta evitar aqueles que começam em silêncio: uma dívida que cresce sem controle, uma compra por impulso ou um patrimônio construído durante décadas e colocado em risco por alguns minutos de emoção.Há quem veja duas profissões completamente diferentes. Ele enxerga a mesma missão.Porque alguns incêndios queimam paredes. Outros queimam sonhos, patrimônio e anos de trabalho. O fogo continua existindo. Só mudou de endereço. E, para Falkemback, a missão continua exatamente a mesma.“Continuo fazendo o que sempre fiz: servindo e salvando. Só mudei de mesa.”Leia também: Entre bisturis e patrimônios: a trajetória de um médico no mercado financeiroThe post De bombeiro a consultor de investimentos: ele salvava vidas, hoje protege patrimônios appeared first on InfoMoney.

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