Apeiron - Vasco ca ta li, ma el ta li...
Esta nota
transportou-me diretamente para o Apeiron, ou Arco, como é geralmente
conhecido. Uma construção arquitetónica mística e emblemática – património
material e simbólico concebido e mandado erguer pelo Vasco Martins na Praia do
Norte na ilha de São Vicente e inaugurado no dia 21 de junho de 1998, dia do
Solstício de Verão.De acordo
com o Vasco, o Arco está virado para o Sol Nascente e fica a 33,33 metros acima
do mar, segundo medição GPS do “almirante dos ventos” François Gui. Foi feito
para durar pelo menos meio século pois como o próprio afirmou, “as gerações vindouras
cuidarão dele”.O Arco, uma
referência arquitetónica não apenas de São Vicente, mas de Cabo Verde e além-fronteiras,
é um portal cósmico legado do Vasco ao seu país e, em particular, à sua
estimada ilha e às suas gentes. Talvez para nos lembrar que a existência não se
esgota na sua dimensão quotidiano e que somos constantemente convidados a olhar
além do visível ou tangível – a ler as estrelas, emocionar-nos com o cântico
das jubartes e do oceano, a ampliar os nossos sentidos para uma experiência de absorção
cósmica. Aliás, toda
a obra artística e poética, bem como o pensamento do Vasco, são atravessados
pela manifestação de algo maior, uma sensibilidade e uma consciência em
permanente diálogo com o universo. A sua criação navega entre a insularidade e
a dimensão cósmica, utilizando a música, em particular, como veículo para se
fundir com dimensões mais amplas da existência. Afinal, como escreve em Alquimia
da Luz, “dizem que há mundos paralelos”.Talvez por
isso as palavras do Vlú tenham tanto significado e ressonância, sugerindo que o
Vasco sempre pareceu dialogar com horizontes mais vastos do que aqueles que
habitualmente vislumbramos. Para quem
não teve a oportunidade de privar com o Vasco, a forma mais direta de se
aproximar daquilo que procuro partilhar neste texto – um gesto de celebração,
amizade e memória - é através da sua obra. É nela que continua a habitar.Voltando ao Apeiron,
é preciso conhecer minimamente o seu contexto filosófico e conceptual para se
poder compreender as motivações que levaram o Vasco a erguer este monumento que
convoca a experiência universal da arte, além da geografia e do sujeito. Apeiron
é um termo da filosofia
grega que designa o ilimitado, o indefinido, o infinito. Em Anaximandro de
Mileto, filósofo pré-socrático, surge como o princípio originário de todas as
coisas, a fonte primordial de onde tudo emerge e para onde tudo regressa.Mais tarde,
o pensamento de Deleuze permite reler o Apeiron à luz de uma visão
cósmica da existência, na qual o caos não representa a ausência de ordem, mas
uma potência criadora capaz de gerar novas formas, relações e mundos possíveis
sem perder a sua força original. Para o Vasco
o Arco significa um portal cósmico, um símbolo simultaneamente introspectivo
como expansivo, que representa essencialmente a música como caminho espiritual
ascendente.É também
neste contexto que nascem os “Concertos Vasco Martins no Arco”, uma programação
anual dedicada à mais pura fruição da música, em perfeita ressonância e fusão
com a paisagem envolvente. Um ambiente onde o murmúrio das ondas, os diferentes
tons de azul do mar e do céu de lua cheia, as dunas de areia branca e a
respiração do público se fundem, em uníssono, com as notas místicas dos
sintetizadores tocados pelo Maestro. Nos
Concertos no Arco, o Vasco criava, em tempo real, ambientes transcendentes e
paisagens sonoras que se entrelaçavam numa simbiose profunda com o Oceano
Atlântico, as luzes cintilantes da Baía das Gatas, ao longe, e os montes
circundantes. Trata-se, fundamentalmente, de uma experiência de convívio entre
amigos, o público, a música, a natureza e o cosmos, pois como afirmava o Vasco,
“pouco mais existe a não ser a união relativa com o absoluto”. Como se pode
concluir, tudo está profundamente interligado. O Arco é muito mais do que um
monumento. Traduz-se num dispositivo poético e espiritual voltado para a
contemplação do ilimitado. Erguido entre o triângulo da terra, do mar e do céu,
materializa a ligação entre a experiência sensível e a vastidão do cosmos. É um lembrete de que o Vasco permanece presente na obra que nos legou,
como compositor, pianista, guitarrista, sound designer, poeta,
musicólogo e, acima de tudo, espírito livre, sensível, elevado e expansivo. Recorrendo
às suas próprias palavras sobre a presença da morna na sua criação musical,
Vasco ca ta li, ma el ta li... COLUNA PARA POEMA Chuva OferendaTerra Ressequida Corpo Ausente Órion Cintilante Orquestração Sinfónica Presença Cósmica Existência Ilha Mar Alísios Colinas Ribeiras Filili VooNotaSilenciosaif. 01.12.25Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.
7/10/2026 4:59:00 AM