A oportunidade que não podemos deixar escapar
«Há uma maré nos destinos dos homens que, aproveitada na praia-mar, conduz à fortuna, desprezada,
toda a viagem da vida fica presa em baixios e misérias.»William Shakespeare, Júlio CésarAos três minutos do prolongamento, em Miami, cinco séculos de história
cabo-verdiana couberam num remate de Sidny Lopes Cabral. O mundo levantou-se
para aplaudir um país que muitos não sabiam localizar no mapa, e que, dois dias
depois, celebrava o aniversário da sua Independência. O Universo recorda-nos
diariamente que coincidências são coisas raras que os eruditos atribuem a Deuses e Mitos. No
entanto, naquele pontapé arqueado e forte a História ganhou vida e mostrou ao mundo aquilo que mornas e poemas crioulos já nos
lembram há séculos, a de
uma nação antiga que nunca aceitou ser pequena.O 5 de Julho começou em 1640A nossa nação não nasceu em 1975, nasceu ao longo de quinhentos anos.
Algures entre 1455 e 1460, dependendo do historiador e das fontes, navegadores
encontraram no meio do Atlântico ilhas onde ninguém vivia. Nelas não se fundou
uma colónia como tantas outras, nestas
praias, montanhas e rochas fundou-se, sem que ninguém o planeasse, um povo novo,
um povo único e a alma da primeira sociedade crioula do Atlântico. Nascida do
encontro de continentes, forjada na secura e na distância, dona de uma língua
sua, de uma música própria, de uma maneira de estar no mundo que se resume na morabeza, eis Cabo Verde. Assim, quando içámos a nossa
bandeira, a 5 de Julho de 1975, não assistimos ao nascimento de uma nação, mas
sim a uma nação de cinco séculos que conquistava, finalmente, o seu Estado.A geografia não nos
ofereceu um berço fácil, um nascimento sem petróleo no subsolo, sem minérios na rocha, e um céu que raramente se
lembra que além de Sol também há chuva para partilhar. Ao povo destas ilhas, o destino deu apenas
mar, vento e engenho, e foi com isso que se construiu tudo o resto. O Estado
nascido em 1975 conheceu primeiro a longa noite do partido único, uma noite sem
lua e com cicatrizes que marcaram o nosso povo. A liberdade não veio no mesmo
barco da bandeira, foi preciso esperar por 1991, e pela coragem de homens e
mulheres que lutaram, alguns com o custo da própria vida, para que o
povo conquistasse, pelo voto, o poder de escolher e de mudar. Onde tantos previam fragilidade, ergueram-se
instituições, onde se anunciava dependência, conquistou-se credibilidade. Cabo
Verde tornou-se aquilo que os cientistas políticos hesitam em explicar e que nós
explicamos com simplicidade descrevendo a nossa conquista como a de um país que
decidiu ser maior do que o seu mapa.Volto a este tema, como volto sempre, porque a liberdade não é um monumento, é um
músculo. Exercita-se ou atrofia-se. Cada geração de cabo-verdianos recebeu-a
com o dever implícito de devolvê-la maior e mais forte. As gerações de 1975, de 1991 e as
que se seguiram cumpriram a sua parte. O nosso papel, em 2026, tem a missão de
transformar o reconhecimento que o mundo hoje nos dá em desenvolvimento que os
nossos filhos possam usufruir.Onze homens, dez ilhas, uma diáspora
e um só coraçãoO Mundo ouviu meio milhão de almas espalhadas por dez ilhas e muitos
mais milhões espalhados por mil portos do mundo, e, durante um mês, todas
couberam dentro de um relvado. O país que o Mundo chamava de pequeno iria
disputar um Campeonato do Mundo e entrou em campo diante de um planeta, e fê-lo
com personalidade, coragem e dignidade. Os Tubarões Azuis superaram a fase de
grupos na sua primeira participação e só caíram diante da campeã do mundo, a Argentina
de Messi, e mesmo assim de pé, mostrando a força
de quem usa como pele a nossa bandeira. Por duas vezes estivemos em
desvantagem, por duas vezes empatámos, e o golo de Sidny Lopes Cabral ficará
entre os mais belos deste Mundial. Perdemos no prolongamento, por 3-2, a 3 de
julho, quarenta e oito horas antes do dia da nossa Independência, como se a História tivesse sentido de dramaturgia.Homero teria reconhecido este povo. Nas epopeias gregas, os heróis nunca
se mediam pelo tamanho dos seus reinos, mas pela grandeza das suas travessias,
e poucos povos atravessaram tanto mar como o nosso. Quem olhou para os Tubarões Azuis não viu
apenas onze futebolistas talentosos. Quem teve a sorte de nos ver em campo,
deliciou-se com um povo que enfrenta os maiores desafios olhos nos olhos, sem
complexo de inferioridade e sem arrogância. Viu a diáspora e as ilhas fundidas
numa só bandeira. Viveu, em noventa minutos, aquilo que levámos quinhentos anos
a construir, uma identidade que prova que nunca será o tamanho do país, será
sempre o tamanho do sonho. Muitos tiveram a tentação de destacar, antes do
primeiro rolar de bola, os prémios que iríamos receber da FIFA. Obviamente, que é um valor importante, que
pode criar impacto nas nossas comunidades, mas o verdadeiro prémio não se deposita num banco, deposita-se no coração
das pessoas, e esse “depósito” é o activo mais
escasso e mais perecível da economia global.Um mundo incerto é também um mundo abertoEsse coração agora
conquistado bate num tempo turbulento. A ordem internacional que conhecíamos
fragmenta-se diante dos nossos olhos, guerras que se prolongam, proteccionismos
que regressam, cadeias de abastecimento que se redesenham, e um clima que já
não espera pela próxima cimeira. Para os pequenos Estados, a tentação é ler este tempo como
ameaça. Eu leio-o como os nossos pescadores leem o mar de manhã, com respeito,
mas sem medo, porque sabem que é precisamente quando as águas se agitam que os
grandes cardumes mudam de rota. Quando as certezas dos grandes vacilam, abre-se
espaço para a agilidade dos “pequenos”, desde que saibam quem são e
para onde vão.A história
recente é generosa em exemplos para quem a quiser ler. Singapura fez de um porto
sem recursos uma plataforma mundial, a Irlanda fez do talento e da diáspora um
motor de prosperidade, a Estónia fez da sua pequenez uma marca digital
global. Nenhum destes países esperou que o mundo se acalmasse, todos
transformaram a sua posição,
geográfica, humana e institucional, em estratégia. Cabo Verde tem
hoje, em cima da mesa, cartas que muitos invejariam. Uma localização atlântica
no cruzamento de três continentes, num momento em que o Atlântico volta a ser o
centro do tabuleiro mundial. Uma democracia estável num mundo que delas sente
cada vez mais falta. Uma diáspora global que acaba de reencontrar, nos estádios,
um orgulho renovado. Um oceano imenso, ainda por desenvolver, que é o maior território que
possuímos. E uma juventude que acaba de descobrir, em directo e em todas as
línguas, que é possível.A oportunidade que não podemos deixar
escaparE se o nosso
Mundo é o
Oceano, a atenção do resto do mundo é uma maré, que sobe depressa e desce mais depressa ainda.
Daqui a um ano, outros protagonistas ocuparão os ecrãs e outras bandeiras
encherão os estádios. A janela que os Tubarões Azuis abriram não se manterá
aberta por gentileza, manter-se-á aberta se a soubermos usar. Usá-la significa
fazer do desporto um verdadeiro projecto nacional, com infra-estruturas,
formação e centros de excelência que transformem o feito de 2026 em sistema, e
não em milagre. Significa apresentar Cabo Verde ao investimento, ao turismo e à
cooperação internacional enquanto o nosso nome está na boca do mundo. Significa
fazer da economia do mar, da transição digital e da qualificação da nossa
juventude as traves-mestras da próxima década. E significa, acima de tudo, exigirmos a nós próprios, na política e nas instituições, o mesmo
padrão que os nossos jogadores exibiram em campo, ambição sem medo, rigor sem
desculpas, unidade sem uniformidade.No século XV, os nossos pioneiros fizeram nascer uma alma
com as mãos nuas, em ilhas onde nada os esperava. Em 1975, os fundadores do
nosso Estado agarraram a sua oportunidade histórica com as mãos que
tinham, e eram mãos quase vazias. Em 1991, homens e mulheres corajosos
agarraram a sua, e alguns pagaram-na com a própria vida. Nós
recebemos mãos incomparavelmente mais cheias, instituições consolidadas, uma
reputação conquistada e um povo que voltou a acreditar em si próprio
diante do mundo inteiro. Se eles fizeram tanto com tão pouco, a História não nos perdoará se
fizermos pouco com tanto.O 5 de Julho
de 2026 não nos pede apenas gratidão, pede-nos coragem, a coragem de acreditar
que o melhor de Cabo Verde não está nos livros de História, está
no futuro que ainda não escrevemos. Os Tubarões Azuis mostraram-nos o método, entrar em
campo sem medo, olhar os gigantes como iguais e jogar sempre para vencer.
Cabe-nos agora, enquanto nação, jogar esse jogo, porque as vitórias, como
a liberdade, não se herdam, conquistam-se.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.
7/13/2026 2:06:36 AM