Nação em Catarse
Este feito transcendeu amplamente o desporto, afirmando-se como
um autêntico fenómeno social e uma força propulsora da identidade crioula
transnacional, construída e consolidada nos espaços diaspóricos, bem como um
importante mecanismo de reforço da unidade nacional, da coesão social e da
memória coletiva. Independentemente do resultado desfavorável, que ditou a
eliminação de Cabo Verde da competição, o facto de ter enfrentado a Argentina
durante 120 minutos constituiu, acima de tudo, um raro privilégio — aquilo que
alguns designam por “meritocracia simbólica”.Socorrendo-nos de um conceito clássico de Marcel Mauss, a
campanha inédita de um país arquipelágico, com forte pendor diaspórico,
configura-se mais do que um simples facto desportivo, como um “facto social
total”. Pode ser interpretada como um caso singular de construção identitária,
mobilização de vontades — dentro e fora das fronteiras —, projeção
transnacional e catarse coletiva em torno da seleção nacional. De facto, numa
sociedade diaspórica como a cabo-verdiana, caracterizada pela dispersão
geográfica, pela insularidade económica e pelo fenómeno do interconhecimento, a
participação num evento desportivo de tamanha projeção internacional funcionou
como um poderoso fenómeno social total, colocando em movimento a sociedade no
seu conjunto e as suas instituições. O futebol, ao colocar Cabo Verde no centro das atenções
globais, deixa de ser apenas uma modalidade desportiva para se converter numa
instituição social relevante, que reflete, molda e atenua tensões estruturais,
funcionando como válvula de escape e mecanismo de amortecimento. É neste
contexto que os cidadãos, beneficiando dos “espaços de exceção” proporcionados
pelos jogos da seleção nacional, libertam frustrações acumuladas e tensões
recalcadas, num quadro em que o controlo social se revela frequentemente
apertado. O tempo dos Campeonatos do Mundo “é o tempo da nação”, como afirmou
Simoni Lahud Guedes (1998), ao refletir sobre o futebol enquanto campo de
produção da identidade nacional. Dito de outro modo, o futebol atua como um
campo privilegiado de produção de nação, em que vitórias e desempenhos
positivos geram euforia coletiva e manifestações públicas de celebração,
amplificadas pelas redes sociais. No contexto da globalização, assume-se também
como um importante fator de circulação e agregação de identidades
transnacionais, visível na participação de jogadores de segundas e terceiras
gerações da diáspora, cujas trajetórias se desenvolvem fora do arquipélago.Neste quadro, quando jogadores nascidos e formados na
diáspora optam por representar Cabo Verde, o futebol funciona como um mecanismo
de
repatriação simbólica e de reafirmação identitária, no âmbitodas políticas de identificação e integração de talentos promovidas
pela Federação Cabo-verdiana de Futebol. Embora o contacto físico com o país
seja, muitas vezes, reduzido ou inexistente, Cabo Verde é conhecido por estes
descendentes através de narrativas familiares, práticas culturais, música,
gastronomia e redes sociais, que contribuem para a construção de uma
“comunidade imaginada”, no sentido proposto por Benedict Anderson. O Campeonato
do Mundo emerge, assim, como um exemplo paradigmático dessa comunidade
imaginada, ao evidenciar a forma como cabo-verdianos dispersos pelo mundo se
reconhecem na seleção nacional — verdadeiro “espelho da nação transnacional” —
e se reconhecem como parte de uma mesma comunidade de pertença. Nos momentos de confronto com potências do futebol mundial,
como Espanha, Uruguai e Argentina, assistiu-se, em Cabo Verde, à suspensão do
quotidiano e das normas sociais, à efervescência coletiva, na perspetiva de
Durkheim, e à quebra das rotinas. Os jogos da seleção
nacional funcionam como um ritual sagrado moderno, dominado por uma situação de
exceção que não pode perdurar indefinidamente, constituindo apenas um
parêntesis na vida social. Neste estado de transição ou de liminaridade, no
sentido proposto por Victor Turner, marcado por um laço de communitas
efémero em que as regras são temporariamente suspensas ou invertidas, a
sociedade experimenta uma intensidade emocional partilhada, gerando um
sentimento de igualdade absoluta, solidariedade e camaradagem entre os adeptos.
A identidade individual é temporariamente absorvida pela força de uma
identidade coletiva, na qual se esbatem as divisões habituais: todos vestem a
mesma camisola e partilham o mesmo espaço, físico ou virtual, num ambiente
festivo. O trabalho abranda e as tensões políticas, económicas e sociais passam
para segundo plano. Os horários ajustam-se aos jogos e, durante os 90 minutos
da partida, o estatuto social desvanece-se, instalando-se uma “nova ordem” e
uma “nova normalidade” provisórias, o país suspende-se. O futebol, pela sua dimensão global e desterritorializada,
constitui igualmente um novo palco de visibilidade internacional, reforçando a
unidade nacional e a coesão social. Para além disso, tem a capacidade de
suspender temporariamente a realidade e de adiar a contestação social face às
dificuldades quotidianas, às assimetrias regionais e às ambivalências
identitárias, que não implicam ausência de identidade. Funciona, assim, como
fator de descompressão social e, perante resultados positivos, promove
celebrações, atua como uma forma de “anestesia positiva” e, à semelhança da
música cabo-verdiana, gera experiências partilhadas que reforçam o sentimento
de pertença nacional.A tristeza da eliminação da seleção nacional de futebol,
longe de se traduzir em frustração depressiva duradoura, reforçou, pelo contrário, o orgulho nacional, o sentido
de pertença e a autoestima coletiva, por via de um mecanismo de compensação e
gratificação social. A eliminação do Campeonato do Mundo
funciona como um “despertador social”. O país inteiro regressa à normalidade
anterior, dissipa-se a igualdade provisória entre os cidadãos enquanto adeptos,
produzida por uma situação conjuntural. Reinstalam‑se as clivagens do
quotidiano e as rotinas de uma sociedade estratificada, marcada por assimetrias
regionais, desigualdades socioeconómicas e divergências políticas, e põe-se termo
ao clima de efervescência social e de euforia incontida, bem como ao estado de
transição, de exceção ou de liminaridade, entretanto instaurado. Em última
instância, a própria reprodução do sistema social implica a reativação das
hierarquias momentaneamente suspensas e o retomar dos conflitos e de outras
dinâmicas.Texto originalmente publicado na edição impressa do Expresso das Ilhas nº 1284
de 08 de Julho de 2026.
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